Trecho No Tempo dos Segredos

Quando o passado regressa, contamina tudo aquilo que existe. Os instantes, até mesmo isso o passado contamina. O instante do despertar e perceber o escárnio teimoso do vazio no lado oposto da cama. O passado é consistente e doloroso e quase palpável e quase passível de ser carnalmente tocado. Por baixo das folhas descoradas que recobrem o chão, o passado mistura-se à poeira das ruas, evocando Lisboa. Os cafés de Lisboa, os passeios de toda a gente, os elétricos, o Tejo deitando-se, jeitoso, em direção ao oceano. Tudo revivido. O passado confunde os signos do cotidiano, toda a estrutura da realidade, desordenando as mesmices da aposentadoria de Gaspar. Torna-se, então, o segundo, o terceiro, o quinto, o vigésimo significado presente nos versos, nos versos conhecidos desde sempre e continuamente redescobertos. O passado ressurge desse modo, impedindo Gaspar de esquecê-la: Celeste Correia dos Reis Azinhaga. 

       O riso de Celeste. Os caracóis cor de trigo dos cabelos que os ventos do Algarve emaranharam em certo Agosto já distante. Celeste ostentando cabelos revoltos em contraste com a doçura costumeira de gestos e expressões. Curvava o dorso e utilizando os braços, envolvia os joelhos desnudos. O sol do Algarve dourava-lhe as faces pintalgadas. Volvia-se, de quando em quando, o verde dos olhos confidenciando segredos. Todos dirigidos a Gaspar, e guardados silenciosamente por ele durante décadas. Todos regressando na conhecida caligrafia daquele envelope perturbador e surpreendente.

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       Gaspar Fernandez ocupara a cátedra de Literatura Comparada durante vinte e cinco anos na Universidade de São Paulo. Caso desejasse, estaria apto a continuar ocupando o cargo como outros professores, mas quando surgiu uma oportunidade da aposentaria, resolveu aproveitá-la. Poucos colegas conheceram o motivo de tal decisão: causava-lhe aborrecimento tanto a excessiva politização do curso quanto o debilitado talento dos estudantes. Gaspar jamais se casou, e desde o falecimento do pai, residia, sozinho, na mesma antiga casa localizada no bairro de Higienópolis. Com tempo vago, dedicou-se principalmente à paixão pela literatura – agora purificada dos estandartes ideológicos. Construída criteriosamente durante as últimas duas décadas, sua biblioteca particular era realmente bastante diversificada. Gaspar admirava todos os autores selecionados, porém, escolhia guardar uma predileção especial aos poetas brasileiros e portugueses.

       Todas as tardes acomodava-se à varanda, cercado por vasos e também acompanhado de algum pardal que eventualmente ali se abrigasse. Consigo trazia este ou aquele volume selecionado. Ajeitava os óculos, geralmente despendendo breves segundos até reconhecer a postura que julgasse adequada. O estofado da cadeira de vime era confortável. Desfolhava os versos, então, apreciando-os, desprovido daquela exigência profissional do catedrático; só necessitava ter, em tais momentos, o amor dedicado à poesia. Os adeptos do fanatismo ideológico que costumavam infestar o Departamento de Letras, enxergando racismo e opressão em cada simples metáfora, estavam completamente excluídos daquele seu momento particular. Só a voz dos poetas ecoava. Gaspar cedia, em certas ocasiões, à tentação de meditar um tanto mais demoradamente acerca de um e outro trecho. Declinava o livro aberto sobre o peito, e vagando o olhar de modo displicente, deixava o pensamento voejar enquanto observava o movimento cotidiano do bairro.

       Os dias conservavam a mesma estrutura. Criou a rotina quase espontaneamente, como consequência dos traços de personalidade que lhe eram característicos. Gostava, por exemplo, de percorrer as vias de Higienópolis depois de tempestades raivosas. Tão logo cessava a torrente, todas as impressões eram colhidas por Gaspar, desde a visão do asfalto coberto por folhagens e galhos retorcidos até os odores peculiares da chuva. Talvez julgasse captar algo de poético naquelas circunstâncias. Cercado pelo concreto de São Paulo, tais ocasiões ofereciam-lhe o contato mais próximo com a natureza, como se o furor da tempestade rompesse a agitação da cidade, o caos diário de pedestres e automóveis. Os minutos que sucediam às chuvas violentas induziam muitos habitantes à indecisão: o céu continuava tingido com tonalidades escuras, e trovões espocavam, aqui e acolá, desacreditando os aventureiros. Decerto pareceria bem pouco seguro arriscar-se ao exterior naquela situação. Não obstante, Gaspar costumava aproveitar esses raros momentos, e trajando a capa grossa e adequada, calçando sempre os sapatos de solas emborrachadas, escolhia o percurso de forma aleatória, recolhendo nos cabelos curtos os derradeiros pingos do firmamento.

       Todas as atividades da vida rotineira eram realizadas solitariamente. Transcorridos já dez anos desde o falecimento de seu pai, o velho Fernandez, Gaspar compreendia, com resignação, que o estado solitário atingira um nível de estabilidade. Vez por outra, acontecia-lhe sentir saudades do velho Fernandez e seus colóquios renitentes, suas esquisitices de ancião. Mas, em geral, entendia ter-se acostumando com a ausência. Após haver-se retirado para a aposentadoria, talvez movido por decoro social, chegou a visitar o campus uma ou duas vezes, porém, ao fazê-lo, compreendeu estar definitivamente excluído daquele ambiente, como se os colegas e ele existissem em dimensões paralelas. Ora, paciência, Gaspar resignou-se, desobrigando-se de qualquer abatimento. Conseguia, inclusive, concordar que algo daquele seu estado solitário apetecia-lhe. Os livros prediletos serviam-lhe perfeitamente como fiéis companheiros. Seus caprichos e costumes compuseram, portanto, o cotidiano de uma velhice sossegada.

       Ocorria-lhe, amiúde, frequentar certo restaurante português da região. O habitual era fazer as refeições diante do televisor, acomodado no sofá, observando o noticiário com desinteresse, como se os ruídos pretendessem somente dissimular o silêncio. Ingeria os sanduíches que ele mesmo preparava ou comida congelada do supermercado. Se Gaspar optava pelos tais congelados, agia motivado por questões meramente práticas. Sabia que o gosto daquele tipo de alimento era muitas vezes insosso e decepcionante, porém, ao menos aquilo evitava ter trabalho em demasia na cozinha. Visitar o restaurante português aliviava um pouco sua rotina. O garçom do estabelecimento já o conhecia, e, de costume, os dois dispensavam alguns minutos confabulando acerca de trivialidades. Logo depois, o cliente ocasional deliciava-se com a especialidade da casa: mariscos acompanhados de vinho verde.

       Foi ao retornar do restaurante, em ocasião recente, que acabou deparando-se com o envelope de cor escura no interior da caixa do correio. Há tempos recebia tão-somente as mesmas correspondências gerais: duas ou três revistas, alguns periódicos, contas de consumo e propagandas variadas. O envelope indicava postagem de Londres, e como remetente trazia o nome da mulher que despertava nele recordações angustiantes.

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       Ao espanto seguiu-se a constatação de um desequilíbrio. Tudo desequilibrado, tudo arruinado absolutamente. O esforço despendido durante décadas, em vão aquele esforço para esquecê-la e encarcerar memórias e sentimentos, erguendo paredes de silêncio. Tão logo encarou o nome de Celeste escrito no envelope, e reconheceu sua caligrafia, tão logo compreendeu que ele segurava nas mãos o passado redivivo, vestígios de certa circunstância que supunha já sepultada, tão logo deduziu que a correnteza o carregaria ainda uma vez mais, Gaspar estremeceu.

       Os signos todos daquele cotidiano construído de modo tão peculiar desconcertaram-se: Celeste estava presente. Pela manhã, ela parecia testemunhar o sono solitário de Gaspar no cômodo de cortinas beges e pesadas. Discretamente, dava a impressão de acompanhá-lo às ocasionais caminhadas através do bairro de Higienópolis. Gaspar confundia, assim, períodos diversos: o contemporâneo e aquele outro, o tempo antigo vivido em Portugal. Celeste mantinha-se calada. Porém, Gaspar era capaz de perceber o semblante de tez claríssima e o franzido característico da testa que se manifestava quando ela imergia em pensamentos. Vislumbrava também o roçar ligeiro da mão retirando os cabelos defronte aos olhos e o jeito de sempre ostentar naturalidade. Celeste ressurgiu atravessando o véu esbranquiçado que separava os tempos atuais daqueles anos longínquos, causando-lhe perturbação.

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