OS MILAGRES E A ENCRUZILHADA DA CIÊNCIA




O ano de 2021 começou nublado de incertezas devido à pandemia que assolava e continua assolando o mundo todo. Mais especificamente ainda no Brasil, onde o coronavírus disseminou-se como se um espectro mortífero cavalgasse por campos e cidades infectando a atmosfera. O cenário estava distante de ser promissor. Nesses tempos sombrios, quando a humanidade mergulha em dúvidas atrozes, aqueles que se devotam a Deus fielmente costumam voltar-se na Sua direção em busca de respostas espirituais que nos possam consolar ante as milhares de mortes e a precariedade de existência nessa realidade terrena. Podemos ter esperança de que o Criador ofereça nesse momento as respostas tão desejadas? Para alguns, isso talvez pareça algo duvidoso, sobretudo àquelas inteligências viciadas pelos limites do mundo material, mas para outros a esperança de que exista uma realidade transcendente, e que ela se manifeste em momentos de aflição comove profundamente, conservando a sensibilidade alerta para manifestações miraculosas.

Justamente nos primeiros meses desse ano que se afigurava bastante perturbador, em uma cidade não exatamente muito populosa – é claro, considerando os padrões populacionais brasileiros –, noticiou-se uma suposta aparição da Virgem Maria. Tal fato não chegou a despertar alarde excessivo, sendo divulgado tão-somente em redes de televisão locais, e alguns sites da internet. O município de Cristina, no sul de Minas Gerais, surpreendeu-se com aquele acontecimento que chegou a ser fotografado e gravado por alguns indivíduos. Nossa Senhora teria surgido sobre o telhado de uma capelinha dedicada a São José, e falado com certas crianças que ali se encontravam brincando. Ela falava baixinho, disse uma delas, acrescentando que Maria as aconselhava a rezar insistentemente. Na realidade, o que então foi filmado e gravado parecia ser uma imagem de igreja semelhante a outras de Maria Santíssima, bastante rígida e imóvel, e não exatamente uma pessoa que fosse capaz de se manifestar falando. Mesmo assim, seria inusitado que a estátua religiosa de Nossa Senhora surgisse subitamente no telhado de uma simples igrejinha, e se pusesse a sussurrar palavras de ordem religiosa em ouvidos infantis. No dia seguinte, também na casa de uma daquelas crianças, no município de Cristina, consta que Nossa Senhora teria aparecido também, embora não se conheça precisamente – levando em consideração o noticiário – se como imagem sacra ou como pessoa real.

Durante os séculos recentes, manifestações marianas sucederam em circunstâncias que se tornaram memoráveis: La Salette, Lourdes, Fátima, Garabandal, Akita e recentemente em Medjugorje. Embora cada qual tenha características peculiares, existem alguns elementos que são essenciais e repetem-se habitualmente. Por exemplo, essas tais aparições não costumam ocorrer em lugares excessivamente habitados, em cidades populosas e abastadas, ao contrário disso, acontecem em rincões simples, em geral de natureza campesina e humilde. Os videntes, aqueles que são escolhidos no intuito de escutar e interagir com Nossa Senhora são consequentemente indivíduos também simples e humildes, em geral crianças que resguardam a inocência necessária para essa finalidade. Para tais objetivos, não se soube jamais que Maria Santíssima tenha aparecido para doutores, prelados ou autoridades civis. Sempre se dirige ao que há de mais singelo, falando sobre a salvação da humanidade, sobre a necessidade de oração, jejum, sacrifícios e penitência. Nisso reside alguma questão? Haveria algum significado nesse critério? Suponho que sim. Cristo dizia que a Deus aprouve revelar às almas simples aquilo que ocultou aos experimentados, desse modo, é consequente deduzir que Nossa Senhora revele a crianças e adolescentes de constituição espiritual bastante elementar seus valiosos segredos.

Por outro lado, a ciência ou o conhecimento humano tenta com certa frequência compreender os acontecimentos miraculosos que acompanham sempre as aparições marianas, ainda que a isso não sejam diretamente convocados, e extraem conclusões que podem ser claudicantes, às vezes, sobretudo quando partem de pressupostos céticos. Mesmo a Igreja Católica, durante o processo de investigação dos inúmeros fatos miraculosos, busca utilizar certo critério científico a fim de afastar quaisquer dúvidas sobre os acontecimentos, dessa forma evitando que conquistem status de sobrenaturais certas situações que podem ser explicadas pelas leis físicas ou que são simplesmente resultado de falcatruas criadas por indivíduos de má-fé. Naturalmente, nem sempre a investigação desses fatos atinge conclusões definitivas, já que as manifestações divinas frequentemente se furtam à comprovação meramente científicas, são matéria de fé, portanto, devem ser acreditadas e não comprovadas. Neste ponto, a Igreja prefere manter certa postura de prudência, esperando que o tempo demonstre a veracidade dos fatos. De modo específico no que tange à aparição ocorrida em Cristina (Minas Gerais), também a Cúria deu início a um estudo a fim de averiguar com cuidado a circunstância.

Nos dias subsequentes à aparição no município de Cristina, matérias divulgadas em veículos de comunicação traziam explicações da física para a imagem que tinha sido gravada e fotografada no telhado da capela. Pessoas notaram que, no topo da igreja, existia uma corneta usada talvez em ocasiões festivas. A incidência da luz exatamente naquele local teria formado, em conjunção com o contorno da corneta, a imagem da santa, ou se não a imagem exatamente, a ilusão da imagem, aquilo que em física será chamado de pareidolia. Às vezes, em determinadas circunstâncias favoráveis, elementos físicos como luz, sombras, objetos sólidos, etc., podem constituir momentaneamente a impressão sensível de uma forma específica, impressão esta que, com frequência, não permanece durante muito tempo. Usa-se geralmente o exemplo de nuvens cujo formato, às vezes, pode muito bem se assemelhar a um castelo, ao contorno de uma pessoa deitada ou a uma espaçonave. Postas assim as coisas, a suposta aparição de Nossa Senhora necessariamente deveria ser descartada, já que a ciência encontrara até com rapidez uma explicação razoável para aquilo que se supunha ser apenas o engano de fiéis incautos.

Historicamente, a relação entre fé religiosa e conhecimento científico encontrou vários momentos de consonância e dissonância, união e desunião, acordos e desacordos. Se remontarmos aos primórdios da ciência, na Grécia antiga, quando os primeiros filósofos dirigiram sua atenção aos cosmos na tentativa de encontrar a origem de todas as coisas, percebemos que não há qualquer oposição entre a ciência – então filosófica – e a crença em divindades. De fato, o que sucede é um movimento no sentido de dissociar os conceitos filosóficos das divindades mitológicas, não obstante, isso não significava a negação daquilo que era transcendente. Mesmo o atomismo de Demócrito não chega a redundar em ateísmo, conquanto especialistas identifiquem nele a raiz remota do materialismo científico moderno. De qualquer maneira, a filosofia grega não estabelece oposição alguma entre ciência e Deus, não utiliza argumentos racionais no intento de desencantar a realidade, digamos assim, jamais se dispõe a ser usada como arma de ataque à religião, ao contrário, justifica a existência de Deus observando o caráter teleológico da natureza, manifesto na ordem intrínseca das coisas. Aliás, séculos depois o cristianismo assimilou bem as correntes filosóficas dos gregos – sobretudo Platão e Aristóteles –, fundamentando a teologia católica durante os períodos da Patrística e da Escolástica.

No caso específico de São Tomás de Aquino, a conjunção entre o dogma cristão e a filosofia aristotélica oferece igualmente a possibilidade de uma comunhão entre fé e razão. Sem dúvida, o que chamamos de razão – e consequentemente de ciência – não tem o elemento experimental da modernidade; trata-se de um esforço intelectual que se baseia na observação sensível da natureza e na especulação. Mas isso é o suficiente para que Aristóteles estabeleça as bases da observação como método científico e, de maneira semelhante, que São Tomás construa sua argumentação teológica em favor da existência de Deus sobre o fundamento da ordem constitutiva na criação, seja testemunhada de modo íntegro e universal, seja através de graduações. Acontece que esse pensamento filosófico-teológico que na Idade Média tem um status de saber científico acaba sendo confrontado na modernidade pelo advento da filosofia cartesiana e também pela revolução científica. Naturalmente não é apenas a doutrina tomista que então é confrontada, mas sobretudo a concepção geocêntrica tradicional que termina sucumbindo ante o heliocentrismo. Porém, quando me refiro mais especificamente a São Tomás de Aquino, observo a passagem de um método intelectivo de entendimento das coisas para um método experimental que, se inicialmente não surge através de Descartes – este ainda profundamente intelectivo –, surge outrossim através de Copérnico, Galileu, Newton, etc.

O método experimental se utiliza, sobretudo, dos sentidos como forma de averiguação e também da repetição de experiências visando comprovar uma determinada observação da qual se possa deduzir esta ou aquela lei natural passível de funcionar universalmente. Ou seja, para que uma experiência seja bem-sucedida, tem que demonstrar sempre os mesmos resultados quando oferecidas as mesmas condições durante o processo. Dou um exemplo: dois corpos de massas diferentes atirados de altura idêntica cairão de maneira simultânea no terreno ainda que possuam massas diferentes, conforme estabelece Galileu. Para que essa regra seja considerada válida, ela deve ser verifica sempre que o experimento for repetido dentro das condições necessárias. Na medida em que isso acontece, é possível concluir com grau considerável de certeza que uma determinada ação conduz necessariamente a uma determinada reação, concatenação que se encontrava no íntimo do processo, mas que somente através do trabalho científico de Isaac Newton se torna manifesta. Para além disso, dentro da perspectiva do método assim proposto, tudo aquilo que não foi submetido a experiências necessita ser considerado hipotético e não provado. Poderá ser provado caso passe pela exigência do experimento ou então descartado caso o método desse modo determinar.

Pois bem, voltemos ao tema da aparição de Nossa Senhora na capela da cidade mineira de Cristina porque será relevante analisar mais detidamente a posição dos físicos. No site G1 foram entrevistados três especialistas: Gabriel Hickel, astrofísico da Universidade Federal de Itajubá, Aníbal Thiago Bezerra, professor de física da Universidade Federal de Alfenas, e finalmente Flávio Augusto de Melo Marques, professor e especialista em óptica da Universidade Federal de Lavras. Sem dúvida, devemos recordar que tais especialistas foram procurados pela reportagem a fim de emitir um juízo científico sobre as fotografias e gravações, e afirmo isso no intuito de ressaltar que, se eles discordaram da possibilidade de ter acontecido ali qualquer manifestação religiosa verdadeira, em princípio não o fizeram porque buscassem, por iniciativa própria, envolvimento no caso. Deram seu parecer baseados em conceitos acadêmicos que, mesmo sendo válidos em si mesmos, precisam justificar-se perante o fenômeno miraculoso. Pois não basta que as regras da física existam e que expliquem determinados fatos, nesse caso específico, necessitam explicar suficientemente a aparição de Nossa Senhora sobre o telhado de uma capelinha. Isso naturalmente considerando que, de qualquer modo, os especialistas aceitaram participar da questão, pois para todos os efeitos, sendo verdadeira, a aparição de Maria é uma questão teológica e não física, portanto, tomá-la como real e inspiradora independe da aceitação científica.

Gabriel Hickel utiliza o conceito de pareidolia a fim de explicar o fenômeno ocorrido em Cristina, argumentando que existem fundamentos psicológicos agravados pelo fato de a aparição encontrar-se vinculada a um local de culto religioso e a sociedade estar atravessando no momento uma crise pandêmica que teria assim o potencial de suscitar no imaginário das pessoas a visão mariana. Nessa mesma reportagem, Aníbal Thiago Bezerra e Flávio Augusto de Melo Marques referem-se à ilusão de ótica no intuito de dar uma explicação científica para o acontecimento. Pareidolia e ilusão de ótica são conceitos realmente muito semelhantes, quase idênticos em certos aspectos, com a diferença ligeira de que, no caso da pareidolia, dá-se uma proeminência mais acentuada à influência psicológica, conforme citado acima. Mas no fundo, em ambos os casos, sucede uma espécie de engano que conduz às pessoas a acreditarem ver alguma coisa que, de fato, não existe. Obviamente a ligeira diferença conceitual mencionada não oferece problema para um leigo em ciências, contudo, em termos propriamente científicos podemos afirmar que entre os especialistas consultados não houve o consenso. Mesmo que a pareidolia e a ilusão de ótica pareçam semelhantes, ambas não correspondem totalmente. Isso tem realmente importância? Sim, na medida em que nos surpreende com o fato de que também a ciência, pretendendo dissipar as dúvidas, acaba não oferecendo uma resposta determinante para o fenômeno religioso.

Dentro do território científico, a certeza é um fator de considerável importância, o que frequentemente a opõe ao problema religioso já que na religião aquilo que conta, em essência, não é a verificação dos fatos através de métodos lógicos, e sim a fé. E nesse contexto, a fé consiste, muitas vezes, em caminhar na escuridão, em acreditar no que é incerto dentro de padrões demasiado racionais, em confiar em uma realidade que não é física, que independe das leis do universo material, e, portanto, não é passível de ser verificada. Seria correto que existisse uma conciliação entre o argumento científico e o religioso, mas essa distinção mencionada é causa de choques constantes. Para uma sociedade racionalista, a religião parece o reino da escuridão, enquanto a ciência ilumina nossa realidade com suas conclusões repletas de certeza. Contudo, o desenvolvimento da física no século vinte enveredou por um caminho no qual a possibilidade de estabelecer cálculos certeiros naquilo que dizia respeito ao movimento tornou-se meramente probabilístico com o trabalho de Max Planck e a descoberta da dimensão quântica da matéria. Mais tarde, o estabelecimento da mecânica quântica, consequência do trabalho de Werner Heisenberg introduziu o conceito fundamental do princípio da incerteza, baseado na impossibilidade de prever a trajetória das partículas subatômicas senão probabilisticamente, o que determinava uma mudança importante no padrão científico clássico que se estruturava na lei de causa e efeito newtoniana, caracterizada por um determinismo infalível.

Posto isso, é necessário asseverar que na atualidade a ciência encontra-se talvez mergulhada em uma situação conflitante na qual o paradigma clássico, aquele que pretendia oferecer-nos resultados absolutamente corretos e calculáveis vê-se obrigado a conviver com outro paradigma que instaura um reino de casualidade. Isso trouxe, em contrapartida, reflexões interessantes dentro de perspectivas filosóficas, por exemplo, em que a possibilidade de um universo no qual é acessível vislumbrarmos infindáveis probabilidades em potencial oferece aos seres humanos novas perspectivas de como a realidade poderia ser diferente, contudo, em termos propriamente científicos, essa dificuldade de atingir um resultado certo e preciso na dimensão quântica significa frequentemente ter de conviver com uma dimensão enigmática da natureza. No decorrer do século vinte, um confronto real e grave aconteceu: adeptos da nova teoria quântica, sobretudo Heisenberg, defendiam a incerteza como elemento novo da física, enquanto Albert Einstein assegurava que a casualidade não poderia ser parte constituinte da estrutura cósmica, mas somente consequência de um conhecimento até então parcial da realidade subatômica de partículas. O resultado das pesquisas deu mais razão à tese formulada por Heisenberg, e a física assimilou em definitivo um conceito que solapava as expectativas de tudo explicar com a infalibilidade de um relógio suíço.

Mas retornemos à aparição de Nossa Senhora em Cristina, pois esse é precisamente o mote da reflexão. Para que as hipóteses levantadas pelos especialistas fossem mesmo comprovadas, não bastaria que a ciência pudesse afirmar a existência de pareidolias e ilusões de ótica, isso ainda não é o suficiente. Seria necessário que, utilizando-se do método experimental, se repetissem as mesmas condições – de preferência no mesmo local – e, consequentemente, disso resultasse a imagem de uma santa ou algo bem semelhante. As condições naturalmente consistem nas luzes incididas com determinada intensidade sobre o ângulo do telhado daquela capela. Sem tal experiência, a posição dos cientistas se constitui de hipóteses que não encerram, em definitivo, a possibilidade de uma aparição mariana. Naturalmente, cabe aos especialistas aventar explicações razoáveis para o acontecimento, porém, dentro de padrões especificamente científicos; e considerando esses padrões, uma questão não se encontra solucionada em definitivo até que encontre comprovação experimental, o que nessa situação particular não acontece. Pois bem, se uma manifestação miraculosa costuma transcender os limites da lógica, compreende-se que para a ótica científica pareça carecer de veracidade, já que esta se assenta sobre argumentos bem lógicos, no entanto, também não é racional que meras hipóteses explicativas assumam a posição de justificativa final se o próprio método não foi usado corretamente. Enfim, não se pode descartar a aparição de Nossa Senhora em Cristina a partir das declarações dos cientistas mencionados na matéria do site G1.