O TEMA DAS PERVERSÕES SEXUAIS NA LITERATURA

O papel da psicanálise dentro do contexto cultural foi, desde sempre, motivo de especulações variadas. Sem dúvida, quando meditamos acerca da contribuição de Sigmund Freud para a sociedade moderna – sobretudo ocidental – evocamos seus estudos e conclusões sobre a sexualidade. Depois de suas elucubrações nesse sentido, a abordagem intelectual do tema tornou-se diferente, menos sujeita a visões estereotipadas, e mais aberta à compreensão. Naturalmente, a psicanálise atravessou momentos em que as contribuições freudianas foram deturpadas por concepções ideológicas, mas a obra do médico austríaco continua à disposição para aqueles que desejam conhecer a psicanálise em sua fonte mais fundamental. Neste ensaio, tenciono abordar a questão da sexualidade no contexto desse fundamento original, mostrando os seus significados mais íntimos, além do modo como se relaciona com outra área de estudo: a literatura.

As obras literárias servem, neste sentido, como modo de refletir, através de um enredo ficcional, a vivência humana de certa característica peculiar da sexualidade: as perversões. Freud estudou esse assunto em alguns trabalhos, mas sobretudo em Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Nesse estudo, o pai da psicanálise esmiúça as várias manifestações sexuais, analisando suas causas e consequências no que tange à estrutura psicológica dos indivíduos. Tratando-se de uma abordagem científica, a obra tem elementos bastante conceituais, sendo assim, faz-se ausente uma exposição mais prática da realidade ali analisada. Portanto, ao aproximar aqui dois romances – O Jovem Törless (Robert Musil) e O Templo Dourado (Yukio Mishima) –, tenciono não somente mostrar a influência da psicanálise sobre a literatura, mas tornar palpáveis as concepções freudianas.          

De modo a facilitar a compreensão daqueles que se dedicarem à leitura desta monografia, utilizarei o primeiro estágio expondo detalhadamente o pensamento de Sigmund Freud. Tratarei ali de evocar suas reflexões acerca da sexualidade humana e, de modo mais específico, o assunto das perversões. Quando a obra foi lançada essa temática naturalmente suscitou imensa repercussão e nem sempre o pai da psicanálise foi compreendido em suas intenções. Dar atenção àquilo que de certa maneira permanece oculto – e neste ponto refiro-me especificamente ao impulso das perversões – decerto lançou sobre o próprio Freud certa sombra negativa. Muitos o consideravam um pervertido, no entanto, o fato é que a intenção do psicanalista austríaco era entender a natureza humana em sua profundidade e lançar luzes sobre tudo que até o momento conservava-se sob véus da obscuridade.

Isso é de tal modo verdadeiro que a realidade da perversão sexual se manifesta não somente na conceituação teórica da psicanálise, mas também na abordagem literária. O escopo deste trabalho consiste justamente em mostrar o quanto as inovações científicas no campo da psicologia trazidas por Freud encontram correspondência na realidade e, consequentemente, nas obras ficcionais que refletem essa mesma realidade. O modo como os dois autores escolhidos descrevem as perversões demonstra com muita clareza que essas tendências sexuais são frequentemente tratadas como algo a ser camuflado ou reformulado dentro de um sistema pedagógico. Os personagens de ambos os romances encaram as suas próprias tendências perversas em contraste com o meio circundante que busca reprimi-las, reeducando-os. Tais situações podem ser entendidas como expressões microcósmicas da circunstância. De fato, na sociedade as inclinações sexuais que fogem dos padrões são, em geral, reprimidas ou sublimadas. No decorrer deste trabalho, ao fazer a conexão entre o pensamento de Sigmund Freud e os dois romances tentarei demonstrar o conflito existente entre impulsos – e comportamentos sexuais alheios ao sistema convencional – e a estrutura do ambiente circundante.

1. O conceito de perversões sexuais em Sigmund Freud

Quando estudamos o pensamento de Freud, sobretudo no que tange às questões relacionadas ao sexo, concluímos que o pai da psicanálise diferenciou com bastante clareza aquilo que considera uma atividade sexual (dentro da normalidade) de outros aspectos – também da sexualidade – cujas características fogem do padrão considerado normal. Para Freud, na medida em que as fases do desenvolvimento ocorrem, sucedidas inicialmente na infância, naturalmente passamos de uma fase a outra sem fixações. O mais adequado, nesta situação, é que um indivíduo adulto demonstre um tipo de comportamento sexual considerado normal. Para além disso, devem ser consideradas as situações em que um indivíduo, tendo encontrado algum problema na passagem de uma fase a outra, desenvolva atitudes sexuais distintas. A isso podemos denominar perversões. As perversões são comportamentos relacionados ao sexo que podem eventualmente ocasionar problemas de convivência social ou distúrbios psicológicos.

 “Considera-se como alvo sexual normal a união dos genitais no ato designado como coito, que leva à descarga da tensão sexual e à extinção temporária da pulsão sexual (uma satisfação análoga à saciação da fome).” (Freud, Sigmund, Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, 2009, Imago).

Tais são as colocações de Freud a respeito deste assunto. Fala-se inicialmente de normalidade como se pudesse existir, de fato, uma espécie de desenvolvimento perfeito da sexualidade humana, passando as três fases tão conhecidas – oral, anal e fálica – sem que houvesse, durante este percurso, a ocorrência de problemas constantes. É possível considerar nisto uma espécie de idealização da natureza humana, mas Freud trata de corrigir, ele próprio, a possibilidade dessa idealização, afirmando no seu próprio estudo que vestígios de perversões são encontradas em todas as situações, ou seja, até que se torne uma aberração – e essa é justamente a palavra que ele utiliza – é possível que as perversões existam de modo discreto ou aceitável socialmente. Ele chega a afirmar: "Em nenhuma pessoa sadia falta algum acréscimo ao alvo sexual normal que se possa chamar de perverso, e essa universalidade basta, por si só, para mostrar quão imprópria é a utilização reprobatória da palavra perversão." (Freud, Sigmund, Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, 2009, Imago).

Neste ponto devemos considerar a complexidade da natureza humana, e como a psicanálise busca compreender essa complexidade. De fato, entre aquilo que consideramos normal e aquilo que podemos denominar perverso, existe uma linha divisória, como Freud é capaz de admitir. No entanto, trata-se de uma linha bastante tênue. Ultrapassar os seus limites é algo um tanto previsível. Logo, quão normal devemos nos observar? Se Freud determina que todos podemos ter elementos de perversidade, isso significa que existe a possibilidade de estarmos fora dos padrões dessa tal normalidade. Supõe-se naturalmente que elucubrações tais como essas devam ter soado chocantes para a sociedade da sua época. Mesmo hoje atribuir a todas as pessoas elementos de perversidade soa de maneira um tanto quanto ofensivo. Mas a realidade é que muito frequentemente não nos analisamos com tanta acuidade, às vezes por receio, às vezes por ignorância. Sendo assim, desconsiderar a possibilidade da perversão – mesmo em grau diminuto – dentro da natureza humana tida como normal, significa obscurecer a visão da própria verdade.

Certas feições daquilo que podemos denominar perversidade são encaradas dentro da sociedade moderna de formas diferentes. Por vezes, consideramos essas feições como algo censurável, outras vezes elas suscitam em nós curiosidade, e talvez até mesmo excitação. O caso do sadismo e do masoquismo enquadram-se nessa circunstância de dualidade. Atualmente podemos encontrar grupos de pessoas que se afirmam praticantes do sadomasoquismo. Há reuniões onde tais indivíduos se encontram a fim de praticar sua atividade sexual sui generis de modo reservado. Sem dúvida, pesa sobre esse determinado grupo uma carga de incompreensão. Para entender o motivo pelo qual pessoas se submetem à dor ou sentem um desejo irrefreável de infligir sofrimento a outro semelhante é preciso escrutar com acuidade os labirintos da psicologia humana. A respeito disso Sigmund Freud escreveu:

“A sexualidade da maioria dos varões exibe uma mescla de agressão, de inclinação a subjugar, cuja importância biológica talvez resida na necessidade de vencer a resistência do objeto sexual de outra maneira que não mediante o ato de cortejar. Assim, o sadismo corresponderia a um componente agressivo autonomizado e exagerado da pulsão sexual, movido por deslocamento para o lugar preponderante.”

“O conceito de sadismo oscila, na linguagem corriqueira, desde uma atitude meramente ativa ou mesmo violenta para com o objeto sexual até uma satisfação exclusivamente condicionada pela sujeição e maus-tratos a ele infligidos. Num sentido estrito, somente este último caso extremo merece o nome de perversão.”

“De maneira similar, a designação de ‘masoquismo’ abrange todas as atitudes passivas perante a vida sexual e o objeto sexual, a mais extrema das quais parece ser o condicionamento da satisfação ao padecimento de dor física ou anímica advinda do objeto sexual. O masoquismo enquanto perversão parece distanciar-se mais do alvo sexual normal do que sua contrapartida; em primeiro lugar, pode-se pôr em dúvida se ele aparece alguma vez como fenômeno primário, ou se, pelo contrário, surge regularmente do sadismo mediante uma transformação. É frequente poder-se reconhecer que o masoquismo não é outra coisa senão uma continuação do sadismo que se volta contra a própria pessoa, que com isso assume, para começar, o lugar do objeto sexual.”

(FREUD, Sigmund, Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, 2009, Imago).

Conforme percebemos, a questão das perversões sadomasoquistas não se resume única e exclusivamente às tensões sexuais. Não se trata apenas de satisfazer um impulso, mas sim também de submeter o outro ou então ser submetido pelo outro, e isto significa que a pulsão sexual, neste caso, encontra-se vinculada a um diverso âmbito da natureza humana que pode ser denominado "desejo de poder". O sádico se satisfaz subjugando aquele com quem se entretém sexualmente. A dor faz parte dessa relação, no entanto, conseguir que a outra pessoa aceite padecer o sofrimento – e não apenas aceite, mas se regozije – depende de uma submissão da vontade. Possuir autonomia sobre o arbítrio do outro a ponto de lhe causar sofrimento está na raiz dos relacionamentos sadomasoquistas. Fazer com que a vontade alheia se conforme à própria vontade do sádico é um motivo de satisfação.

Falar de perversões, e sobretudo destas em particular, certamente pode suscitar em muitos certo desconforto. Para a maioria das pessoas, encontrar gozo físico na dor ou o ato de provocar a dor em outrem não é o tipo de situação que ocorra normalmente. Muitos porque não encontram em si mesmos essa inclinação, e outros tantos porque mesmo quando encontram, tratam de sufocar tais impulsos. De qualquer modo, as perversões são elementos constituintes da psicologia humana, ainda que não se manifestem universalmente. Abordar essa temática está no interior de uma busca científica corajosa e profunda. Para além dessa ótica teórica com a qual nos deparamos na obra de Sigmund Freud, existem também outras abordagens que servem para a nossa compreensão. Por exemplo, a literatura. Em inúmeras obras literárias somos confrontados com enredos ou personagens que exploram a temática dos comportamentos sexuais perversos, incluindo o sadomasoquismo. Neste trabalho específico, como foi adiantado em páginas anteriores, tencionarei uma analogia entre o pensamento psicanalítico e dois romances de autores consagrados. Farei isso no intuito de demonstrar, de um modo algo mais prático, a realidade dos impulsos sexuais em contraposição com o meio social circundante.

2. O Jovem Törless (Robert Musil) e a questão das perversões

Sigmund Freud vinculou a questão das perversões à infância, encontrando nesta primeira fase da vida do ser humano as origens de futuros comportamentos perversos. De fato, é possível perceber o aflorar de determinadas atitudes dessa natureza – sobretudo em adolescentes. Durante a juventude, identificamos comportamentos específicos que são provavelmente a consequência de fixações, manifestando-se, então, de um modo diferente. É bastante conhecido o fato de que o período conhecido como juventude revele-se frequentemente propício a atos de rebeldia, e a rebeldia pretende, muitas vezes, provocar a destruição. Por consequência, a destruição tem a possibilidade de produzir dor e sofrimento. Portanto, não é equivocado afirmar que nesse período da existência humana, ou seja, no período da juventude, todo cuidado deve ser tomado a fim de evitar que os indivíduos alimentem em si mesmos atitudes de perversidade. Nesse sentido, os colégios de formação devem esforçar-se a fim de corrigir determinados comportamentos que possam ocasionar em uma fase adulta problemas de maior gravidade.

Uma das obras escritas pelo escritor austríaco Robert Musil busca retratar exatamente o esforço de um colégio de formação no sentido de educar jovens dentro de um padrão de alta cultura, visando com isto erradicar dos espíritos ali existentes toda e qualquer forma de perversidade. Sem dúvida, é preciso notar que o termo perversidade dentro de um ambiente cristão, como é o caso do colégio ali retratado, muito frequentemente é trocado pelo termo correlativo da teologia, ou seja, o pecado. A obra em questão se intitula O Jovem Törless, e nela Robert Musil traça com bastante acuidade um ambiente juvenil, não deixando de descrever as tendências pecaminosos ou perversas daqueles jovens estudantes. Neste sentido, é possível identificar dois aspectos contrastantes: o impulso na direção do pecado que geralmente pode conduzir a atos perversos e a tentativa de erradicar daquelas personalidades em formação toda e qualquer inclinação ao que deve ser considerado maligno.

O personagem em questão nos conduz, pouco a pouco, ao mais íntimo de sua alma. Com isto, descortina-se diante dos nossos olhos a confluência de dois impulsos distintos: aquele vinculado aos instintos mais primitivos e o outro inspirado pelos rígidos padrões de comportamento da sociedade. Törless carrega dentro de si desejos sórdidos que ele próprio não é capaz de escamotear. São intensas tentações ligadas às pulsões sexuais, aos desejos da carne mais propriamente, porém, isto não é tudo.  Na realidade, o protagonista deste romance reconhece ali aspectos sombrios de sua personalidade, notando assim que doravante com isso será obrigado a conviver. Ora, trata-se de uma situação bastante conveniente, afinal, Törless vive naquele momento as descobertas de sua natureza, algo propício à fase da juventude. Ter passado pelo período característico da Inocência, e chegar, em seguida, a um tempo no qual a realidade acachapante acerca do próprio ser se manifesta, é uma vivência cabível a um adolescente.

Por vezes, o protagonista do livro tenta compreender suas particularidades em comparação com outros jovens do colégio interno: “O motivo residia em parte na sua relativa timidez em assuntos de sexo, como acontece a quase todos os filhos únicos; esse comportamento, porém, devia-se sobretudo às suas tendências sensuais peculiares, mais secretas, mais poderosas e mais sombrias do que as de seus amigos, manifestando-se com maior dificuldade.” Törless encontra-se em uma situação na qual se desvenda, paulatinamente, aspectos ainda não decifrados de sua natureza. Na companhia de outros garotos, em uma viagem de trem, ele se questiona a respeito de suas próprias impressões sobre a experiência artística: "Pensou nos antigos quadros que vira em museus, sem entendê-los bem. Esperava alguma coisa, como sempre esperara diante daquelas pinturas... Algo que jamais acontecia... O quê? Algo surpreendente, jamais visto; uma visão monstruosa, da qual não tinha a menor ideia; uma terrível sensualidade animal; que o pegasse pelas garras e o dilacerasse, começando pelos olhos; uma experiência que... devesse se ligar... de uma forma ainda muito imprecisa... aos vestidos sujos das mulheres, com suas mãos grossas e a miséria de seus quartinhos, com a lama dos quintais... Não, não; nesses momentos ele percebia apenas a rede chamejante diante dos olhos; as palavras não exprimem isso; não é tão ruim como as palavras o fazem parecer; é algo mudo... um nó na garganta...um pensamento quase imperceptível, que só brota quando a todo custos e quer dizê-lo em palavras; mas então seria parecido apenas de longe, como algo imensamente aumentado, onde não somente se vê tudo mais nítido, mas também se percebem coisas que sequer existem... Ainda assim, aquilo o envergonhava.” Quão dolorosa é a constatação de seus próprios desejos, na medida em que estes são o contraste da ordem reinante em seu meio social!

No fundo, suas meditações que engendram angústias mortais são as mesmas de outros tantos rapazes com os quais convive no internato. Nisto reside o fator diferencial da obra em questão. Pois desvelando o elemento superficial da rica e educada sociedade ali retratada, Robert Musil traz à luminosidade os anseios mais secretos da juventude. Toda a inocência desfaz-se, paulatinamente, no contato franco com a realidade mais abjeto do mundo, levando-nos a compreender a existência de um impulso sexual muitas vezes sórdido subsistindo em âmbitos obscuros da alma humana. Em muitos casos, como sugere Sigmund Freud, tais pulsões não chegam a se tornar doentias, contudo, a análise cuidadosa demonstra-nos que frequentemente, em hemisférios algo adormecidos, há desejos sádicos ou masoquistas.

No decorrer da trama, desenvolve-se outra situação que expõe as relações de caráter sexual perverso entre os demais personagens. Isto sucede devido à circunstância de um roubo, cuja responsabilidade recai sobre Basini, um jovem homossexual do internato. Outros dois rapazes, Beineberg e Reiting, aproveitando-se da situação submetem Basini ao estado de dominação, ameaçando denunciá-lo caso este não aceite submeter-se. As coisas atingem uma tal gravidade que cenas de tortura ocorrem, causando em Törless um sentimento de horror. Misturam-se, desse modo, impulsos libidinosos abjetos com desejos obscuros de violência e humilhação. Neste ponto, devemos evocar os conceitos apresentados por Sigmund Freud no capítulo anterior, refletindo sobre essa íntima relação entre os desejos e a agressividade humana. Tudo se encontra presente nesta obra de Robert Musil, e mergulhar em sua leitura é uma ótima oportunidade para compreender as nuances da psicologia através da abordagem literária.

3. O sadismo na obra literária de Yukio Mishima

O contato com a obra literária do escritor japonês Yukio Mishima talvez pareça perturbador inicialmente, sobretudo se considerarmos certos aspectos de sua personalidade que se encontram presentes nos escritos. Sua homossexualidade manifesta-se com clareza em algumas obras, principalmente em Confissões de Uma Máscara e Cores Proibidas, mas não somente isto, também se revela como característica marcante uma tendência forte ao sadismo. Sobre esse aspecto, o autor em questão não chega fazer segredo, tratando deste tema diretamente em suas confissões. No romance de estreia, Mishima evoca os momentos das descobertas sexuais, trazendo à tona certo elemento desconcertante de sua natureza: o prazer mórbido que sente ao visualizar imagens de corpos masculinos desnudos em situações de sofrimento.  Por exemplo, uma gravura de São Sebastião, cujo dorso nu crivado de flechas e o rosto em expressão de êxtase causam-lhe um verdadeiro frenesi sexual. Na medida em que avançamos no conhecimento dos livros, percebemos o quanto esse fato peculiar influência em sua temática. Por vezes, não de maneira flagrante, no entanto, sempre é possível identificar essa tendência em seus enredos.

Penetrar no universo literário desse escritor japonês significa conviver com aspectos opostos de sua personalidade. Há muito frequentemente o culto da beleza e da perfeição, bem como a visão intrépida das idiossincrasias humanas. Sem dúvida, algumas obras tocam mais particularmente determinados leitores, e a mim em especial o romance intitulado O Templo Dourado suscita uma série de reflexões nas quais se mesclam não somente a qualidade literária do autor, mas do mesmo modo temas pertinentes como a sexualidade, a religião e a violência. Poderá ser difícil compreender que relação subsiste entre questões tão díspares, não obstante, mergulhando na leitura deste romance de Yukio Mishima, descobrimos a possibilidade de uma síntese instigante. Identificamos no destino de Mizoguchi – o protagonista da trama – uma situação bastante complexa em que se chocam os impulsos sexuais mais desconcertantes e sua vocação religiosa que, em determinado momento, vê-se confrontada com a perspectiva de atos violentos.

Mizoguchi dirige-se ao mais belo templo do Japão, uma verdadeira obra artística e arquitetônica conhecida como Tempo Dourado. Lá seguirá o mesmo destino de seu pai, ou seja, servirá ao culto religioso que ali se celebra. Por um lado, nota-se claramente a grande admiração que Mizoguchi sente por aquele local específico, enquanto ao mesmo tempo surgem em seu coração angústias relacionadas aos desejos de ordem sexual e um estranho impulso de destruição. Ainda que ofereça ao Tempo Dourado uma autêntica admiração, nasce dentro de Mizoguchi o terrível anseio de destruir aquele local sagrado. De onde surgirá essa tendência à destruição? Por que Mizoguchi se percebe dividido pelas duas inclinações? No fundo, o protagonista do enredo manifesta com isto uma espécie de sadismo em que se comungam tanto o amor quanto o ódio, tanto a paz da existência religiosa quanto a violência das pulsões mais instintivas. Dentro dele existe uma força negativa que é permanentemente reprimida pela prática da vida religiosa. Neste caso, é possível identificar no fator estético e artístico do templo e na rotina do culto religioso duas possibilidades de sublimar esse impulso violento, entretanto, Mizoguchi também então encontra dificuldades de canalizar esses desejos mais primitivos no sentido da sublimação. De fato, em seu interior, algo parece borbulhar, mas só ao termo da obra compreendemos que as pulsões o dominam mais do que seria razoável.

Certa passagem oferece uma visão sintetizada do drama que é vivenciado pelo personagem: um soldado bêbado conduz uma prostituta às redondezas do Templo Dourado, e encontrando Mizoguchi, obriga o jovem servidor do templo a pisotear a mulher, demonstrando assim todo desprezo à condição daquela que ali estava. Nesse breve trecho, identificamos três elementos essenciais do espírito que permeia esse romance, e isto se constitui da busca religiosa encarnada em Mizoguchi, das pulsões sexuais representada pela prostituta, e da violência manifestada na personagem do soldado. Decerto, na medida em que mergulhamos na leitura da obra de Yukio Mishima, percebemos que esses três elementos se chocam constantemente, às vezes prevalecendo um deles, outras vezes prevalecendo os demais. No caso específico, o impulso da violência (sadismo) exerce sobre a sexualidade e sobre a espiritualidade um domínio absoluto, a ponto de coagir o servidor do templo a humilhar a prostituta subindo sobre seu corpo. Desse modo, o caráter sádico sobressai-se, demonstrando o quanto é intenso na obra literária do autor.

Para além do primor estilístico, o romance em questão conduz os leitores pelo labirinto da alma humana. Mizoguchi é um indivíduo quem tenta conservar o equilíbrio em uma situação de impulsos contrastantes, porém, ao termo da narrativa não é realmente capaz de controlar a inclinação para a violência. O ato de incendiar o símbolo máximo da sua religiosidade significa a vitória dos instintos mais primitivos sobre a sofisticação estética e espiritual. Sendo assim, ele se revela incapaz de conter a força lancinante de seu sadismo que talvez a ele mesmo permaneça escondido. Mishima cria uma obra literária de valor inestimável na qual os antros mais obscuros da psicologia são clareados a fim de que os leitores possam contemplar a complexidade de suas feições.

Conclusão

Sempre haverá vertentes de interpretação nas mais variadas áreas do conhecimento a respeito da sexualidade dentro da perspectiva da psicanálise. De fato, a alma humana é muitas vezes um abismo de contradições, e sobre esse abismo o estudioso da psicanálise estende o seu olhar perscrutador a fim de compreender as inúmeras razões do comportamento humano. Que a literatura expresse magnificamente essa complexidade demonstra, sem dúvida, a capacidade dos escritores de manifestar artisticamente aquilo que se encontra na obra psicanalítica de forma conceitual. Nesta monografia, acredito ter estabelecido elos consistentes entre o trabalho de Sigmund Freud e dois romances de autores conceituados cujos enredos podem ser interpretados a partir das descobertas psicológicas estabelecidas pelo médico austríaco. O texto não exige, neste momento, qualquer acréscimo que possa esclarecer mais do que o próprio cotejamento realizado até então. Basta concluir somente que a psicanálise continua aberta à pesquisa intelectual, bem como ao diálogo com outros campos do saber.

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