SUZI

1.

O táxi deixou Suzi em frente ao edifício da administração. Primeiro havia ultrapassado a cancela com guarita que ofertava acesso ao Hotel Fazenda Solário, e corrido a curta estrada até alcançar o destino. Suzi admirara as caliandras plantadas à beira do caminho, o tom róseo característico das folhas em combinação com outras tonalidades da paisagem. O gramado ao redor parecia ter sido cortado recentemente, pois seu verde escuro exibia-se em matiz homogêneo; quanto ao firmamento, mantinha-se totalmente aberto, e no azul vibrante não se adivinhava nem sequer um fiapo de nuvem. Suzi acertou o pagamento com o taxista e, em seguida, dirigiu-se à recepção.

– Pois só o que eu sei é que vocês combinaram de vir fazer a manutenção das piscinas e estou aguardando – dizia o homem ao telefone. – Tenho cento e sete hóspedes chegando amanhã, e preciso muito das piscinas em ordem. Ele viu Suzi, e gesticulando na direção da moça, solicitou que aguardasse um instante. Era de boa estatura e robusto. Os cabelos, a barba cerrada, a tez morena, tudo suscitava a possibilidade de uma descendência árabe. Trajava camisa de tecido resistente, abertos os botões superiores, e na medida em que se movia ao telefone, Suzi vislumbrou um crucifixo dourado no pescoço. Havendo terminado a ligação, dirigiu-se a ela. – Se a gente não cobra os serviços, esse povo não aparece – explicou-se. Com segurança, apertou a mão da moça. – Sou Kamal, proprietário. Veio a trabalho? – Sim. Sou a massoterapeuta. – Suzi, não é? – Isto. – Desde cedo estou recebendo funcionários e mercadorias. Cozinheiros, faxineiras, carregadores… está uma loucura! Duas horas atrás, precisei conferir os laticínios que vieram num caminhão, e, ao mesmo tempo, chegaram entregas de refrigerante e água mineral – observou-a detidamente. Suzi era mais baixa, e fitava-o da posição inferior sinalizando certo nervosismo. Havia manchas quase imperceptíveis na testa da moça, consequência de um bronzeamento recente mal sucedido, no entanto, esse defeito não comprometia excessivamente seu aspecto. Bonita de modo não exuberante, com razoável forma física, e seios de tamanho médio que se ocultavam debaixo da blusa. – Pois bem, serão dez dias de trabalho. A maioria dos funcionários reside em Atibaia, e os outros ficarão hospedados na administração. São cômodos particulares, não se preocupe. Você não é daqui, pelo que soube. – Não sou – Suzi respondeu. – Disse cento e sete hóspedes? – Por quê? O número te assusta? São cento e sete realmente, mas fique tranquila. Trata-se de uma reunião da terceira idade. Gente simpática, acredite. Costumo recebê-los periodicamente, e não há demasiada agitação. Além disso, meu hotel fazenda tem diversas atividades, eles acabam se distraindo bastante com as piscinas e os animais. Suzi deixou-se conduzir até o cômodo, subindo por uma escada externa ao segundo andar do edifício. – Servimos o jantar às sete horas. Você atenderá os hóspedes amanhã, das nove às três da tarde, com um intervalo para o almoço – disse o proprietário. – Descanse bem. Serão dez dias, de qualquer maneira. – Pode deixar. Sentiu-se mais à vontade assim que se despediram. Por algum motivo, Kamal acentuava sua ansiedade costumeira, talvez porque fosse o patrão, e ela estivesse atuando como massoterapeuta pela primeira vez. Praticara com os demais colegas do curso e com voluntários. Somente isso. Contudo, recebera elogios na formatura, e esperava ser suficientemente capaz de exercer a função, mesmo considerando que atender cento e sete pessoas significasse bastante responsabilidade. No cômodo, buscou alojar-se da melhor forma possível. Tudo ali dentro era simples: em vez de cortinas, persianas plásticas; cobrindo a mesinha uma toalha descorada; e no banheiro o tapete era emborrachado e escuro. Com toda certeza a decoração dos bangalôs dedicados aos hóspedes devia ser outra. Mais estética e confortável. Se comesse em excesso, temia sofrer indigestão, e não estar em condições aceitáveis no dia seguinte. Por isso, desceu para o jantar bastante cedo, e ingeriu apenas sanduíche e suco. Havia poucos funcionários às mesas, e Suzi preferiu não interagir com ninguém naquele instante. Às vezes, percebia-se constrangida em ambientes desconhecidos, e se soltava tão-somente depois de certo tempo, ao habituar-se à situação ou descontraindo-se com algum outro fator surpreendente. Retornando ao cômodo, estirou-se na cama e, com o intuito de convocar o sono, cansou-se lendo um romance. Com o desenrolar da noite, o silêncio na área externa recrudescia, e Suzi concentrava-se na leitura do romance tentando esquecer que permaneceria sozinha durante aqueles dias de trabalho. Finalmente, sentindo-se suficientemente sonolenta, desligou as luzes e decidiu dormir. Mas o sono tardava, e Suzi revirou-se sobre o colchão. Provavelmente não conseguira ainda se desvencilhar do estado de ansiedade. Caso voltasse ao livro, perderia por completo qualquer perspectiva de repouso, e assim Suzi teimou em continuar travando a mesma batalha. Só após as quatro horas o corpo cedeu ao cansaço, e ela desabou.

2.

Sofreu as consequências naturais da noite mal dormida: acordou indisposta e contrariada. Bebeu diversas xícaras de café bem forte, e dirigindo-se à sala onde realizaria as massagens, testemunhou os três ônibus que surgiram trazendo os hóspedes. Desembarcavam ruidosamente, e depois de se terem acomodado nos bangalôs, já começaram a perambular pelo hotel fazenda. Perto das onze horas, formou-se uma fila diante da sala de massoterapia. Suzi contou oito pessoas. Conforme dissera Kamal, eram todos hóspedes calmos e simpáticos, e embora ainda percebesse alguma tensão em si mesma, controlou-se provisoriamente, atendendo a todos até que chegasse o horário de almoço.

Passado o horário do almoço, Suzi ainda recebeu outras doze pessoas. Terêncio, um senhor negro cuja figura esbanjava bastante disposição, mostrou-se falante e jocoso durante todo o tempo, e na companhia dele a massoterapeuta conseguiu descontrair-se. – Sua diabinha! Assim você me deixa mal acostumado – falou, recebendo a massagem. – Puxa vida, seu Terêncio! O objetivo da massoterapia é deixar as pessoas bem acostumadas. – Não se faça de rogada, menina. Você sabe do que é que estou falando – Terêncio insinuou, divertindo-se. – Minha falecida esposa nunca foi dessas coisas. – Dessas coisas? – Era uma ótima mulher, eu te asseguro. Só que não tinha esse talento tão especial. Meu Deus! Estou todo relaxado aqui! Suzi riu. – O senhor é boa pessoa. – Passei dos setenta, trabalhei bastante durante a vida toda, tento manter a saúde em dia e, nesta fase, pouco me resolve esquentar a cabeça. Ser dessa maneira é o remédio que eu uso contra qualquer problema. Às quinze horas, Suzi encerrou seu atendimento. Fatigara-se bastante, entretanto, estava satisfeita com o desempenho, mesmo considerando ser somente uma iniciante. Soubera usar com muita correção as técnicas aprendidas no curso, e isso causava nela um sentimento de alívio. Sozinha, decidiu caminhar pela área do hotel fazenda a fim de conhecer o terreno, gozando o tempo agradável da região. Partindo da administração, Suzi enveredou pelo caminho de seixos em direção ao lago artificial que estava no centro daquela propriedade, utilizando-se de um ritmo vagaroso, e distraindo-se teimosamente com as pedras do caminho, às vezes de uma coloração escura, outras vezes clara. Às margens do lago, deixou-se observar os cisnes deslizando sobre as águas. Os animais vogavam de maneira plácida, como se o ambiente ruidoso causado pelas atividades dos hóspedes não os incomodasse. Do lado oposto, encontravam-se as piscinas, e Suzi percebeu que, declinando a tarde, os banhistas morosamente se retiravam. As águas do lago arrepiaram-se com os ventos que anunciavam o termo do dia, e de forma instintiva, Suzi esfregou os braços como se buscasse aquecê-los. Seguiu a rota determinada pelo caminho de seixos, e ao deparar-se com uma bifurcação, subiu rumo à área dos banhistas. Havia-se encerrado finalmente a movimentação, e encontrar o local tão silencioso e estacionado causou-lhe certa melancolia. Somente o bar mantinha-se aberto, e Suzi acercou-se do balcão. – Servem bebida alcoólica? – Servimos – respondeu o funcionário. – Margarita, por favor. Gostou de constatar o efeito da bebida. Sentia-se descontraída e segura, como se toda a tensão daquele dia inicial de trabalho se extinguisse. O barulho oriundo dos hóspedes, agora recolhidos nos bangalôs, chegava até as piscinas, e Suzi imaginou que todos se preparavam para a refeição noturna servida no refeitório junto à administração. Mesmo cansada, não estava faminta. Preferia fruir o momento, ao invés de misturar-se à confusão de pessoas em mesas abarrotadas. Terminando a margarita pediu outra dose, e enquanto continuava à espera, foi abordada. – Você é a massoterapeuta que o Kamal contratou, não é? – Sou sim. – Me chamo Laerte, e trabalho como enfermeiro aqui. Vi você bebendo, e achei bom conversar contigo. – Será que tem problema? – Beber? Pois então, é possível… a gente é funcionário, não é? Suponho que o Kamal talvez se incomode. Ou nem tanto. Isso não costuma acontecer, sabe? Digo, a gente beber na piscina, me refiro aos funcionários. Às vezes tomo vinho, admito, mas prefiro o terraço do segundo andar, ali onde a gente fica alojado. Depois, tudo é muito caro neste lugar, e eu sempre acho melhor ir ao centro comprar no supermercado. – O centro fica distante. – Isso é. Por esse motivo tenho o costume de trazer duas ou três garrafas quando já sei que os hóspedes vão ficar por muitos dias… – Laerte fez uma pausa antes de expor a sugestão. – Penso que o mais seguro mesmo seja beber no terraço. Suzi aceitou o convite. – Tem bastante tempo que você trabalha no Solário? – Sete meses – disse Laerte. Ele despejava a bebida no copo de plástico que entregara a Suzi, ambos sentados no piso do terraço – Trabalhei em dois hospitais antes. Só que aqui é mais tranquilo. Eu prefiro. – E o salário? – Ganho menos agora do que antes, quando me dedicava a uma profissão diferente. Fui jogador de futebol até os meus trinta e quatro anos. – Sério? – Sério. – Que idade tem atualmente? – Faço trinta e nove em Julho deste ano. E você? – Vinte e dois. O vinho excessivamente doce que Suzi ingeria misturava-se à saliva, tornando-a mais viscosa. – Eu não sou de torcer – ela confessou. – Mas fiquei curiosa… em quais clubes você jogou? – Nasci no Rio, e comecei no Olaria aos dezessete anos. Fui da divisão de base. Sabe o que significa, não sabe? Desde moleque eu sonhava em me profissionalizar. O futebol é generoso para os que conquistam fama… mas também tem muito de traiçoeiro. Fiz minha estréia contra o Fluminense, num domingo, a torcida do Olaria era pequena, a gente só enxergava torcedores do Fluminense nas arquibancadas. Pensei comigo: Quero jogar num clube assim… Se atuasse bem, o time talvez se interessasse. Tive um desempenho razoável, era uma estréia, no fundo estava nervoso. O Olaria ficou em sétimo no campeonato carioca, e acabei recebendo uma proposta de transferência. Fui contratado pela Portuguesa Santista, onde fiquei durante cinco anos… – Você era atacante? – Lateral direito – o enfermeiro respondeu. – Fui atleta da Portuguesa Santista até os vinte e três anos, só que aí, então, houve atrasos de salário, e eu consegui uma transferência para o América Mineiro. No segundo ano de clube, fiz um campeonato brasileiro realmente muito bom. Muita gente andava dizendo que eu estava negociado com algum time paulista, e eu pensei mesmo que existia interesse. Um empresário me aconselhou a deixar o América e ir correndo para São Paulo. Me disse que estava tudo acertado com o Palmeiras, que bastava somente assinar o contrato. Pois eu segui o conselho dele e acabei me dando muito mal. Rescindi com o clube de Minas, e só quando cheguei a São Paulo é que descobri que aquela promessa do empresário não se cumpriria. Fiquei sem contrato praticamente durante um ano. Se soubesse o meu desespero… Uma equipe da segunda divisão do campeonato baiano, enfim, aceitou me contratar, e ali fiquei até parar em definitivo. – E depois? – O dinheiro que ganhei atuando no futebol desapareceu muito rápido, e eu precisava sobreviver. Fiz um curso de enfermagem, e comecei a trabalhar na área. Laerte alçou a barra da calça até o joelho. – Ainda tenho cicatrizes das pancadas que levei em campo. Olha só… Ele mostrava com certa satisfação, embora Suzi sentisse algum acanhamento ao testemunhar o único legado de tanto esforço empreendido. Laerte quase atingia os quarenta anos, e, na realidade, aparentava até mais idade. Seus cabelos crespos, de corte baixo, revelavam-se brancos nas têmporas, e o porte atlético dos tempos esportivos só se denotava muito ligeiramente. Várias vezes, ao se expressar, cobria a boca com insistência, e Suzi desconfiou que lhe faltassem os dentes do fundo. Porém, como havia escurecido no terraço, ficava complicado ter certeza. – E você? – ele interpelou. – Sabe o que quer da vida? – Conclui o curso recentemente. Penso em crescer, é natural. Pretendo atender em duas ou três clínicas, e talvez assim arrumar dinheiro suficiente para abrir um espaço que seja somente meu. Sou ansiosa, às vezes. Sei que é meio esquisito, pois trabalhar com massoterapia significa exatamente produzir relaxamento, mas nasci assim. No fundo, só o que desejo é ficar bem. – Ficar bem? – Exato. – E está se sentindo bem neste trabalho? – Ontem, ao chegar, estava tensa. Creio que a figura do Kamal causou nervosismo em mim. – Ele é um bom sujeito. – Pode ser – disse Suzi. – Mesmo assim, tive dificuldades para dormir depois. – Precisa de calmantes, nesse caso. – Jamais usei comprimidos. – Tenho amigos que trabalham em hospitais, e eles me fornecem remédios, às vezes. Se quiser, posso te oferecer. Suzi não se opôs. – Tudo bem. Laerte dirigiu-se ao cômodo em que se encontrava hospedado, e trouxe duas caixas. Suzi enfiou-as rapidamente no bolso da calça, e agradeceu. – Tome somente meio comprimido por vez – aconselhou o enfermeiro. – É o suficiente. – Preciso ir descansar. Se tiver realmente uma noite de sono satisfatório, trabalharei com mais disposição. – Amanhã à tarde, depois do seu atendimento, a gente pode fazer uma caminhada até o rio que passa dentro da propriedade. São vinte minutos de distância, é tranquilo. – Seria ótimo – Suzi concordou, antes de se despedir.

3.

Contrariando Laerte, tomou o comprimido inteiro, e dormiu rapidamente depois. No dia seguinte, as sessões de massoterapia pareciam ter conquistado notoriedade entre os hóspedes e, para seu espanto, crescera o número de atendimentos. Suzi quase não teve descanso. Quando encerrou o expediente, sentia-se profundamente fatigada, e ao projetar os dias que sobreviriam, decerto nesse mesmo ritmo, não conseguiu evitar que o corpo se enrijecesse sob o efeito da tensão. Precisava descobrir um modo de controlar aquela terrível ansiedade.

– Dormiu direito? – Laerte quis saber ao encontrá-la. – Como uma pedra. Por outro lado, os hóspedes fizeram fila o dia todo, nem sei exatamente quantas massagens precisei fazer. Estou exausta. – Precisa relaxar. Vista roupa de banho, e vamos até o rio de que falei. – Só um instante – disse Suzi, voltando minutos depois com vestimentas mais leves, e biquíni por baixo. Caminharam até os limites do hotel fazenda, e depois de contornarem uma colina, finalmente chegaram ao rio. Os hóspedes preferem as piscinas, disse Laerte, quase nunca vêm a este lugar. Suzi ficara um tanto indecisa com a força da correnteza, entretanto, ao perceber que estava distante de ser caudalosa, decidiu arriscar-se. Guiada pela mão de Laerte, equilibrou-se sobre as rochas escorregadias da margem, e mergulhou na água. Sentiu-se arrepiar imediatamente. Está gelada, falou, e o outro redarguiu: Logo o corpo acostuma. Ele tinha razão, em breve habitou-se, e chegou mesmo a apreciar. Conservar-se em pé exigia alguma perícia, pois o fundo era também rochoso, e a todo o momento Suzi vacilava, necessitando agarrar-se ao dorso mulato de Laerte. Sempre que acontecia, os dois riam. Depois de certa hesitação, ele deslizou o corpo da jovem até envolver sua cintura, e assim ambos se mantiverem grudados. Pertinho de mim você fica mais firme, justificou-se. Suzi não recusou aquele contato. Poderia afastar-se delicadamente, e isso talvez não fosse interpretado como menosprezo, no entanto, recordou-se da ansiedade padecida durante os últimos dias, e supôs que o sexo aliviaria completamente a tensão. Regressando ao edifício da administração, despediram-se, e Suzi recolheu-se ao cômodo privado, novamente se desobrigando de frequentar a refeição coletiva. Sentia-se em dúvida acerca da atitude tomada no rio. Parecera-lhe, em princípio, boa oportunidade descontrair-se fruindo as benesses da satisfação sexual, mesmo tão casualmente, e na companhia de um simples colega de trabalho. Porém, tanta convicção desvanecera-se, e se houve, de fato, qualquer descontração momentânea, de novo havia cedido espaço à ansiedade. Deitou-se na cama, após o banho, e tentou esquecer o problema. Como isso não era fácil, ingeriu um dos comprimidos entregues por Laerte, e notando que o efeito não se demonstrava imediatamente, engoliu outro na sequência. Necessitava forçar o descanso naquela noite, e com dois calmantes dentro do organismo, obteve o resultado.

4.

No salão de jogos, alguns idosos reuniam-se até a madrugada disputando partidas de buraco. Naquela ocasião, depois de quatro ou cinco rodadas, sucedeu ali um tumulto: alguém desmaiara muito subitamente. Haviam chamado o enfermeiro, e este buscou, em vão, reanimar a pessoa utilizando-se de massagens cardíacas. O dono do Solário solicitara o resgate, e assim que a ambulância estacionou, paramédicos colocaram o paciente em respiração artificial, e o transferiram ao pronto-socorro. Não obstante, a situação era mesmo irreversível. Somente na manhã seguinte, encontrando Kamal no refeitório, durante o café, Suzi teve notícias a respeito daquele acontecimento.

– Escute, ocorreu um problema ontem à noite: um dos hóspedes morreu. – Tá falando sério?! – ela se assustou. – Pois é. Sofreu um enfarto fulminante. Nós tentamos reanimá-lo, mas era tarde. Faleceu a caminho do hospital. – Mas… e agora?  – Estou me esforçando para manter a situação sob controle. Os demais hospedes se mostraram desnorteados, é natural, mas costumo receber grupos de idosos constantemente, e veja bem, isso acontece, às vezes. Parece muito triste dizer a coisa dessa maneira, no entanto, sei do que estou falando… Tudo acabará se tranquilizando novamente, pode acreditar. – Devo abrir a sala de massagens? – Sinceramente, não acredito que essas pessoas estejam com disposição para distrair-se no dia de hoje, mas penso ser importante conservar todas as atividades do hotel em funcionamento normal. Kamal afastava-se quando Suzi questionou: – Como se chamava o hóspede? – Terêncio. Havendo escutado o nome, também Suzi se sentiu desnorteada. Pareceu-lhe inacreditável que justamente aquele sujeito tão bem humorado, e de compleição saudável sucumbisse de modo assim inesperado. Duvidou, no começo, mas Kamal demonstrava ser um indivíduo responsável, alguém que não se enganaria com tamanha facilidade, e nem tampouco tentaria ludibriá-la. Passou o dia todo encerrada na sala de massagem sem receber sequer um hóspede. Foi mesmo terrível. Contrariando o clima causado pelo acontecimento nefasto, o céu estivera aberto, e o sol refulgira intensamente até o esmorecer da tarde. Os bangalôs mantiveram-se ocupados, e pouquíssimas pessoas arriscaram-se a exibir-se caminhando pela propriedade do hotel fazenda. Suzi trancou a porta da sala às quinze horas rigorosamente, e seguiu pela trilha de seixos até o edifício da administração. Chegando próximo, avistou Laerte acercando-se do mesmo local, e antes de ser flagrada, tomou o rumo contrário, distanciando-se dele. Conquanto Suzi houvesse enredado a si mesma em pensamentos acerca da morte inusitada de Terêncio, ao dar-se com a presença de Laerte, foi acometida novamente pelo constrangimento que lhe causava recordar-se da loucura ocorrida no dia anterior. Padeceu quase imediatamente um conflito de sensações. Sob o pretexto de mitigar o estado de ansiedade que caracterizava sua natureza, entregara-se de maneira leviana àquele desconhecido, e agora se sentia bastante decepcionada. Havia na figura de Laerte certo ar desolador: fracassara totalmente na vida, e o trabalho no hotel fazenda era um desfecho demasiado triste. Suzi preferia honestamente não ter imergido naquele poço de águas turvas e suspeitosas do sexo casual. Guardava tantas expectativas no coração. Sabia-se jovem, e desejava crescer em inumeráveis sentidos, principalmente como massoterapeuta, talvez conquistando, no futuro, a oportunidade de inaugurar seu próprio negócio. Sentia-se uma verdadeira imbecil naquele exato momento. Chega de pensar nisso, tentou convencer-se. Outra circunstância mais relevante ocorrera, e seria bastante desrespeitoso revolver aquelas picuinhas pessoais. Somente no segundo dia posterior ao acontecimento, Suzi recebeu, enfim, uma hóspede na sala de massagens. – Pensei mesmo que não encontraria outras pessoas aqui… – confessou a senhora, ao notar o ambiente vazio. – Quero dizer, considerando o que aconteceu. Foi mesmo triste. Pobre do Terêncio! – Pois é. Sabe que tive a chance de conhecê-lo? Parecia ser muito animado. – E era. O nosso grupo é bastante numeroso, mas nem todos se conhecem com a mesma intimidade. O Terêncio era dos únicos que sempre se dava bem com todos. – Creio que vocês estejam mesmo chocados. – Chateados, eu diria – a outra corrigiu. – Somos idosos, minha querida, e sabemos que esse tipo de coisa pode suceder a qualquer momento. Fazer o quê? – A senhora… não sente receio? – Prefiro não pensar tanto assim nesse assunto. Talvez eu me conforme com mais rapidez, isso eu não escondo. Mas se você quer saber, querida, acredito que os outros se resignarão também. – A maioria ainda se encontra escondida nos bangalôs. – Por hoje, meu bem. Mas eu repito que um sentimento dessa natureza, entre nós, também tem seus limites. Amanhã tudo retorna à mesma rotina.